"Primeiro, fizemos um curral do qual ninguém sai, porque há barreiras à mobilidade de capital. Proibimos o uso do dólar internamente e inventamos a moeda indexada. E aí montamos uma armadilha. Não conseguimos ir para o longo prazo, porque todo mundo quer liquidez diária e juros flutuantes, e temos uma taxa de juros elevada, porque o risco do calote está sempre presente."
Conseqüências dessa política
"Por que os brasileiros com fundos no exterior estão dispostos a comprar o Global 40, um título prefixado de 40 anos, e aqui dentro só aceitam papéis de dois anos, com liquidez diária e juros flutuantes? É o mesmo devedor, o mesmo brasileiro. Só que a garantia implícita dos papéis brasileiros no exterior é muito maior, porque quem decide é a corte de Nova York. E os credores são internacionais. Pode ser que se dê o cano? A Argentina deu. Por causa da incerteza jurisdicional, a Argentina só conseguia emitir, mesmo internamente, em dólar. Aqui dentro, quantas vezes não demos o calote?"
Riscos atuais e corrupção
"Na medida em que a política econômica se mantenha dentro do atual padrão, não há razão para ter calote. Mas não estamos totalmente imunes ao que se chama de neochavismo. É um risco. Não temos um sistema político-partidário estável. O sistema atual é incompatível com o Brasil que está se organizando hoje. Então, sim, corremos o risco de uma ruptura institucional. Não podemos continuar assim. Não é uma questão de partidos, de pessoas, não importa quem esteja no poder, a corrupção domina."
Dívida pública indexada pela taxa básica de juros
"O governo precisa ter mais coragem com a emissão de papéis indexados a índices de preços. O Chile adotou esta estratégia durante muitos anos e só agora começou a emitir papéis prefixados. O Brasil teve excessiva cautela porque, dada a história da indexação, logo veio a crítica de por que indexar o capital, e não o trabalho. Mas a questão é outra. É como proteger estoques de riqueza financeira, e não fluxos de renda. Não se trata de uma oposição entre salários, juros e lucros. Trata-se de saber como o investidor que acumulou alguma riqueza faz para manter o valor dessa riqueza constante no longo prazo. Num país com uma história de inflação como a nossa, um dos riscos é a deterioração dos valores monetários. Portanto, mecanismos contra a inflação são bem-vindos. Não há privilégio nisso. Acho que o governo deveria tratar de explorar mais essas possibilidades.
Existe este caminho [intermediário entre dívida toda prefixada e dívida pós-fixada demais], que foi o do Chile. Se passássemos direto da Selic para os prefixados, o prazo de maturidade dos papéis seria reduzido, já que o prêmio seria muito alto, e poderia ficar a impressão de que o risco de rolagem ficou muito grande, dados os instrumentos de análise usados pelas agências."
O problema da dívida pública de curto prazo
"Pegue a dívida pública. São cerca de R$ 800 bilhões, tudo no curto prazo. Pegue o dinheiro que o BC diz que os brasileiros têm no exterior. São quase US$ 80 bilhões. Se contarmos recursos não-declarados, sobe para US$ 120 bilhões. Daria mais ou menos R$ 290 bilhões. Enfim, estamos falando de um PIB inteiro. Se 20% disso fosse para o longo prazo, já seria muito significativo."
Para retomar o crescimento
Textos de Edmar Bacha e outros economistas sobre mercado de capitais e crescimento econômico podem ser encontrados no website do Instituto de Estudos de Política Econômica. Acesse www.iepecdg.com
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