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Por Josué Leonel

resultado negativo do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre não abalou as expectativas dos analistas financeiros para a economia brasileira em 2006. Eles acreditam que alguns indicadores, como o crescimento do PIB e a inflação, podem melhorar no próximo ano, apesar de fatores como as eleições e a alta dos juros internacionais. O crescimento do PIB deve ser estimulado sobretudo pela queda dos juros, que, por sua vez, tende a ser viabilizada pelos índices menores de inflação.

"Veremos bastante volatilidade, mas ao redor de uma tendência positiva", comenta o estrategista do UBS Wealth-Management, Paulo Tenani. Ele observa que a eleição em 2006 caminha para ser disputada por vários candidatos, com chances de, em alguns momentos, nomes mais à esquerda crescerem nas pesquisas, o que pode gerar volatilidade. Tenani, contudo, não espera a repetição de um estresse comparável ao de 2002, quando o dólar chegou a bater em R$ 4,00. "Hoje está muito mais caro apostar contra o real", observa.

O economista-chefe da Votorantim Asset, Fernando Fix, também considera que as eleições podem gerar "ruídos" no mercado financeiro, mas que não devem afetar a economia, que será favorecida, entre outras variáveis, pelo "amplo espaço para um ciclo gradual de queda dos juros". O economista estima que a inflação deve convergir para o centro da meta de 4,5% em 2006, permitindo à Selic (a taxa básica de juro) cair para até 15,5% no final do próximo ano. Esta queda dos juros, aliada ao crescimento do crédito - de 40% nos últimos doze meses -, ao aumento da massa salarial e a um cenário externo positivo, poderia levar o crescimento do PIB a se acelerar para 3,5% em 2006.

Gradualismo na cena externa

O economista Roberto Padovani, da consultoria Tendências, também está "relativamente otimista", graças, em parte, ao cenário externo. Os Estados Unidos devem desacelerar o crescimento de 4% para algo entre 3% e 3,5% em 2006, mas a China deve continuar com crescimento muito forte, o que favorece o fluxo comercial mundial. Padovani acredita que o Tesouro americano deve continuar reduzindo seu déficit gradativamente, ao mesmo tempo em que o Fed manterá um ritmo gradual de alta dos juros.

Este gradualismo, afirma, diminui a chance de um evento negativo, como, por exemplo, o estouro da "bolha imobiliária" americana. Fix, da Votorantim Asset, considera que os juros nos EUA podem chegar a 4,75% em março, já com Ben Bernanke à frente do Fed, mas esta seria uma taxa considerada neutra, que não afetaria expressivamente a liquidez externa e nem o crescimento dos EUA.

Segundo Padovani, a política econômica doméstica também favorece as expectativas para 2006. Ele observa que os juros devem continuar em queda e fechar 2006 em 15%, o que, associado à manutenção dos níveis de superávit primário, tende a garantir a estabilidade da relação dívida/PIB no próximo ano. Quanto às eleições, ele considera que não há risco de se repetir a volatilidade observada em 2002. "Não tem porquê o mercado antecipar uma descontinuidade na política econômica por causa das eleições", diz o economista.

Ataque especulativo mais caro

Tenani, do UBS, lembra que, na eleição de 2002, o Brasil chegou a maio com uma taxa Selic de 17%, muito baixa em comparação com o custo do capital externo, que estava em 13,5% (risco Brasil mais juro dos EUA). "Estava barato apostar contra o real", afirma, acrescentando outras variáveis que naquele momento reduziam o custo de especulações: a dívida cambial correspondia a 17,5% do PIB e a dívida externa, a 13,5% do PIB.

Hoje, segundo Tenani, a situação dificulta um ataque especulativo. O custo do capital externo é muito menor, na casa de 7,5%, o que permite que o juro no Brasil possa continuar em queda, teoricamente, até o patamar de 13% e ainda assim manter um diferencial confortável em relação à taxa internacional. Ao mesmo tempo, a dívida cambial caiu para 2% do PIB, e a externa líquida, para 7%.

Em 2002, segundo o estrategista do UBS, a alta do dólar aumentava o endividamento do País, via dívida cambial, o que levava a um aumento do risco que acabava realimentando a alta do dólar, num círculo vicioso. Hoje, salienta, ainda que o dólar suba num momento de maior volatilidade, não vai acontecer quase nada com dívida e nem com o risco.

Tenani também observa que a situação na economia pode permitir que o mercado absorva mais serenamente alguma mudança no quadro eleitoral. Isto porque, argumenta, o nível elevado do superávit primário e dos juros permitiria que o governo em 2006, ou mesmo em 2007, viesse a praticar uma Selic e superávits fiscais menores e ainda assim preservar uma linha suficientemente ortodoxa.


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