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Por Célia Froufe e Francisco Carlos de Assis

or que há tanta divergência entre os índices que medem a inflação? E por que o efeito no seu bolso parece diferente do que todos eles apontam? Uma parte da resposta está na composição dos índices: cada um mede coisas distintas, em faixas de renda variadas e em diferentes regiões do País, e ainda por cima em períodos específicos.

Outro aspecto é a evolução natural de cada índice, reflexo das mudanças da própria sociedade. E, por fim, uma constatação: os índices são médias, são referências do que acontece no conjunto, já que seria improdutivo calcular um indicador exclusivo para cada brasileiro.

Há duas décadas, as cidades brasileiras eram menores e havia menos eletrodomésticos. Há seis décadas, então, quando foi criado o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) da Universidade de São Paulo (USP), o cenário era muito diferente. Havia menor necessidade de condução e de uso contínuo de energia elétrica, tipos de gastos que eram então menos relevantes.

Naquela época, a alimentação era o maior componente do IPC, lembra o coordenador do IPC, Paulo Picchetti. "Hoje, a tendência geral é o espaço urbano encarecer a moradia, a manutenção da casa, e o transporte, que é o gasto com deslocamento para o trabalho", explica. Por isso, os itens transporte e habitação têm mais peso no índice atualmente. Na década de 40, a Fipe calculava as variações de preços de chapéus e bengalas, mas hoje entram na estrutura do índice itens como computadores, telefones celulares e TV a cabo.

Na outra ponta, os preços no atacado

Mudanças de comportamento e da economia também influenciam os índices que refletem os preços da indústria, como os Índices Gerais de Preços (IGPs) calculados pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). "Os hábitos mudam e a composição dos índices tem de acompanhar estas alterações", observa o coordenador de análises econômicas da FGV, Salomão Quadros.

O problema da febre aftosa na carne bovina, por exemplo, se reflete no resultado dos IGPs. O mesmo pode ser observado em relação a outros movimentos da macroeconomia, como uma disparada dos preços do petróleo, o crescimento do consumo de aço pela China ou uma quebra da safra agrícola. Os preços ao consumidor também entram na composição dos IGPs, mas com menor peso.

Mesmo na ponta do consumo, há diferenças

A referência utilizada pelo governo para o sistema de metas de inflação é o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ao contrário do IPC da Fipe, calculado para a cidade de São Paulo, o IPCA tem abrangência nacional. É semelhante, porém, ao INPC, também do IBGE.

A diferença entre o INPC e o IPCA está na faixa de renda à qual cada um se refere. Para refletir tal distinção, alguns itens têm pesos diferentes nos dois índices. "Mais de 500 itens compõem o IPCA e o INPC. A diferença entre um indicador e outro está no peso de cada item. Gosto de explicar isso para as pessoas porque poderíamos simplesmente pegar a média dos dois. Só que os pesos são diferentes", destaca a gerente do Sistema de Índices do IBGE, Eulina Nunes dos Santos.

O raciocínio é o seguinte: um mesmo produto pode ter peso diferenciado conforme a renda de cada consumidor. Uma despesa de R$ 100,00 com arroz, por exemplo, representa um impacto bem diferente para uma família com renda mensal de R$ 1.000,00 e para outra com renda dez vezes maior.

Na avaliação da gerente, as pessoas têm razão em discordar dos índices de inflação ao se depararem com a alta do preço de um produto que faz parte de sua cesta de consumo. "Mas não podemos calcular uma inflação per capita. O indicador tem que representar um grupo de pessoas", argumenta.


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